Para dizer que não falei das flores de cannabis para uso medicinal
Afinal de contas, a importação de flores de cannabis para uso medicinal será ou não proibida pela Anvisa?
Uma discussão que tem ocupado a centralidade nas melhores rodas de conversas – de diversos segmentos e players interessados no fortalecimento da cannabis medicinal no Brasil – tem sido a importação de flores da planta e, não diferente à trajetória da inserção dos extratos para fins medicinais, o acesso às flores também tem suscitado o tom polêmico e indagações sobre o respaldo do regulatório para os pacientes.
Faz-se necessário lembrar que a utilização de produto de cannabis in natura está proibida pela ANVISA (RDC 327/2019 artigo 10 § 6º), uma vez que não há, até o momento, segurança sanitária para o uso, sendo da agência a competência legal para regular o que potencialmente poderá trazer risco à saúde pública.
A resposta das autoridades sanitárias está na pesquisa clínica, como esteio de validação quanto à segurança de uso e acima de tudo, um vetor estratégico para o desenvolvimento do setor da saúde.
É na pesquisa clínica que a sociedade se apoia para o preceito da responsabilidade solidária entre governo, instituições de ensino e pesquisa, o setor produtivo e demais interessados em disponibilizar para a população qualquer alternativa terapêutica, assim como para o desenvolvimento de novas tecnologias com vistas à melhoria da qualidade de vida da população.
Entretanto, como definido nas disposições legais dos conselhos de categoria e demais legislações vigentes para a atuação dos profissionais habilitados a prescrever, fica a cargo do prescritor e do paciente a responsabilidade do uso das flores.
Resta, contudo, uma questão: esse fundamento é suficiente para as grandes questões que envolvem acesso a produtos de qualidade, eficazes e seguros?
É indispensável um olhar sistêmico que considere o envelhecimento da população, a persistência de desigualdades sociais – que se refletem na qualidade de vida e da saúde – a necessidade de otimizar os recursos financeiros disponíveis para a saúde, no enfrentamento à violência, os acidentes e uso de álcool e outras drogas.
A sociedade é um organismo vivo e complexo e, portanto, tem demandas como a pauta de avanços na independência tecnológica, no esforço para incrementar a exportação e fortalecimento econômico do país. Estas pautas continuam sem solução e apontam para um senso coletivo “de que tudo pode quando utilizado para contribuir de alguma forma para a saúde da população”.
Entretanto, o ambiente regulatório não funciona e não se orienta por esta regra desvinculada do contexto social complexo e diverso.
A disposição regulatória que permite acesso a medicamentos/produtos de cannabis não registrados no Brasil, se dá pela modalidade de importação individual, e essa é uma disposição legal vigente e regulada pela ANVISA.
Até aqui nenhuma novidade, mas a crescente importância dos eminentes agravos resultantes ou associados à importação de flores para uso, conforme as redes sociais – uso adulto – que no meu entendimento configura uma burla ao sistema regulatório, desrespeitando a legislação nacional para o controle do uso de drogas. Reitero a advertência de diversos médicos, profissionais prescritores respeitados que argumentam sobre possíveis danos à saúde pública, tendo novamente a fundamentação e apelo para a questão da segurança dos pacientes e o aporte da pesquisa clínica.
E onde está a redução de risco à saúde? Na Constituição de 1988 (art.196) e na obrigação e competência legal da ANVISA em cumprir esse critério constitucional, além de todas as legislações sanitárias.
Importações de flores de cannabis
Se hoje a importação de flores, se dá por um ato regulatório – RDC 660/2020, que atualmente cumpre no seu conteúdo uma Decisão Judicial do Processo (Ação Civil Pública nº 0090670- 16.2014.4.01.3400), portanto limitada a duas obrigações que não estão sob a governabilidade da autoridade sanitária, uma judicial e outra de categorias profissionais habilitadas a prescrever, quem pode então resolver essa questão?
Como solução para o caos instalado com a panaceia da importação de flores da cannabis, espera-se que o Ministério Público Federal, autor da Ação Civil Pública contra a União e Agência Nacional de Vigilância Sanitária, encontrem, com os réus, a melhor solução jurídica, amparada em pesquisas clínicas.
Creio ainda que alguma outra alternativa mais célere, por parte das autoridades competentes ligadas ao tema, seja adotada para a solução aos potenciais agravos à saúde de pacientes e ao sistema de saúde pública. Esta situação resvala no desrespeito gritante ao Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e a população têm o direito constitucional de ser devidamente informada sobre a diferença entre produtos de cannabis produzidos com segurança, dentro de padrões sanitários respaldados por pesquisas clínicas e o uso de partes da planta à revelia de orientações terapêuticas de segurança. E você o que pensa disso?